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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Flato

(actualizado)

O editorial do último número de “O Sesimbrense” é um hino à costumada balbúrdia de Agosto. Claro que, para a Dr.ª Peneque, não há balbúrdia como a de Agosto, e não há Agosto como o de Augusto. Logo, não há balbúrdia como a de Augusto. Está lá tudo para o fim da prosa, posto em letra de forma, com a devoção de uma Santa Teresinha (não, não é a senhora da Liga). Não há nisto nada com que me deva surpreender. Desde os tempos do Dr. Sequerra que o jornal da terra está transformado numa folheca sectária e imprestável.

O que agora me causa espanto é o bom gosto revelado pela senhora logo nos primeiros parágrafos da composição. No arsenal literário da Dr.ª Peneque há de tudo: uma praia que “parece um tabuleiro onde se entornou uma caixa de punaises”; “camionetas de carreira” que “despejam ondas incessantes de crianças”; “mães carregando sacos gordos”; filas que “à porta dos restaurantes engrossam à medida que os estômagos vão reivindicando reforços”; e à noite, na "marginal, agora mais comprida, um mar de gente deambulando para facilitar a digestão". Logo depois, a senhora doutora, do alto da sua pesporrência, emite o ralhete correctivo a uma cambada de maledicentes que para aí anda, meia dúzia de “naturais da terra que não gostam desta “confusão”, que não sabem dar o devido valor a este caos abençoado que “deixa euros que engrossam os nossos bolsos”.

Só um psicólogo poderá, ao certo, dizer, que bizarro estado de alma terá assolado a Dr.ª Peneque no momento sublime em que se afoitou a destilar semelhante prosápia. Só um psicólogo saberá desvendar o segredo inconfessável cifrado nesta inaudita sucessão de punaises entornados, de ondas de crianças despejadas, de mães carregando sacos gordos, de estômagos reivindicando reforços que engrossam filas à porta dos restaurantes, barrigas esfaimadas que, já dentro dos restaurantes, deixam euros que engrossam os nossos bolsos, ventres enfim deambulando para facilitarem a digestão.

No meio disto tudo, sempre ficámos sem saber se os reforços chegaram aos estômagos a tempo. Esperemos que sim, por causa do flato. Por vezes, entre o engrossar e o despejar, entre o engordar e o entornar, a equação torna-se difícil. Alguém que puxe o autoclismo, se faz favor. Rapidamente e em força.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Poeira para os olhos

O editorial que Augusto assina no número duplo (Julho-Agosto) do “Sesimbra Município” é um exemplo claro de que o autarca, antes de escrever, deveria parar um pouco para pensar bem naquilo que quer dizer. E, não podendo ser antes, que, ao menos, o fizesse depois, com o texto alinhavado. Teria, assim, evitado cair em contradições insanáveis que põem em causa a sua credibilidade política e acentuam a do seu antecessor, num reconhecimento tácito, e sem precedentes, do mérito de Amadeu.

Fazendo apelo à lógica, essa prodigiosa invenção de Aristóteles, iremos então por partes.

No seu escrito veraneante, Augusto começa por dizer que “Sesimbra é, hoje, o principal destino turístico da Costa Azul”. Estranho acontecimento! Ainda não fez dois anos, o pretendente Augusto ambicionava empenhadamente transformar o concelho no maior destino turístico da Península de Setúbal, que é apenas uma parte restrita da Costa Azul. Agora, num abrir e fechar de olhos, Augusto já quer levar a palma toda.

Uma pergunta óbvia: como conseguiu Augusto semelhante milagre em tão pouco tempo, se 2006 foi um ano de fraquíssimo investimento municipal, e ainda não há dados estatísticos relativos a 2007? Neste ponto, Augusto não teve outro remédio que não fosse o de fugir para a frente olhando para trás. E lá vêm a melhoria da oferta hoteleira, a requalificação do espaço público, a valorização dos produtos tradicionais, o arranjo dos acessos, os estacionamentos e a dinamização do património como factores que explicam o sucesso avançado. Dando-se ares de mago, o edil fala ainda das sobrevindas excelências da divulgação, o que nos daria vontade de rir, se acaso nos não fizesse chorar. Sabe Augusto dizer em que percentagem (e em que número) aumentaram, em 2006, os turistas estrangeiros entre nós? Se sabe, que o diga, para podermos fazer as contas todas, à vista do que gastou em propaganda. Se não, que meta a viola no saco.

Aqui chegados, novas perplexidades se abrem ao leitor atento. Primeira, tudo, ou quase tudo, o que Augusto apresenta agora como causas eficientes do êxito, veio, em altíssimo grau, do trabalho do seu antecessor. Nada de relevante se viu, entretanto, em matéria de estacionamento, de novos empreendimentos turísticos (há, isso sim, o fiasco recente da hasta pública da Avenida dos Náufragos), de valorização do património (salvo os assadouros que fumegam na Fortaleza e as mariscadas leoninas na esplanada da Casa do Bispo!) ou de novos acessos à vila.
Se Sesimbra só agora se tornou o principal destino turístico da Costa Azul (não sei se isto é verdade, Augusto é que o diz), o mérito vai, interinho, para quem criou condições para que tal acontecesse, e não para Augusto. Mas se, por hipótese, Sesimbra já o era, ou estava próximo de o ser, em 2005 (ninguém compreende que o não fosse, ou quase, em 2005, para passar a sê-lo no ano seguinte sem qualquer investimento de vulto), por que razão prometeu então o candidato Augusto o menos (1.º destino da Península) quando já tinha o mais (1.º destino da Região de Turismo)? Há alguma seriedade nisto?

Há, sim, no editorial de Augusto, um momento bem revelador desta sua divertida pantomina. É logo no começo, no título que reza assim: “Sol, mar e tradição”. Nada disto se deve a Augusto. Deve-se a Deus e aos homens, ao Criador e ao bom povo que, volta e meia, tanto jeito costuma dar ao edil e aos seus apaniguados. Por isso, logo a boca lhe fugiu para a verdade. O resto é poeira para os olhos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

A síndrome Tupperware

Há coisas que me fazem espécie. Por que carga de água o anúncio da Exposição Internacional de Arte de Sesimbra deste ano, iniciativa apoiada (ou co-promovida?) e divulgada pela Câmara Municipal surge com os dizeres respectivos primeiro na língua inglesa, e só depois traduzidos para português? Não bastava o traste do Pinho com o triste Allgarve? U2, Augustus? Terá agora o dinheiro dos nossos impostos o nefasto condão de nos pôr servilmente de joelhos perante a ralé “beef” que por aí deambula, como se isto já fosse uma réplica acabada de Albufeira? Para mais, diz o cartaz que esta é a 4.ª bienal de artes plásticas. Gostava então que me dissessem quando se realizaram por cá a terceira, a segunda e a primeira. Será que alguém se deu ao trabalho de ir ao dicionário? Olhem que não é sinónimo de exposição… As luminárias de serviço no burgo não se contentam com o desprezo à língua pátria. Na verdade, não descansarão enquanto a não destruírem. Aposto que ainda hoje estão convencidas de que tupperware quer dizer marmita na língua de Shakespeare…

quinta-feira, 19 de julho de 2007

O carro à frente do porco

Em Sesimbra, as coisas já chegaram a este ponto: a inauguração do “Páteo Verde”, no logradouro da Casa do Bispo, prevista para o passado sábado, dia 14, foi adiada. A razão é simples: Augusto sabia da pretensão do núcleo sesimbrense do Sporting há cerca de um ano, mas só se lembrou de agendar a competente autorização do executivo para a sessão camarária da quarta-feira seguinte. Pelo meio, as obras de remodelação do espaço já tinham sido feitas pelo dito núcleo. Convenhamos que é um bom exemplo para qualquer munícipe que deva cumprir regras.

Haverá quem diga que alguém pôs o carro à frente dos bois. Mentira. O que foi devolvido à procedência foi um porco, destinado à comezaina. Inteirinho, mas morto.

Entretanto, a proposta originalmente apresentada por Augusto era notável: não previa prazo para a cedência e invocava, como justificação da mesma, a impossibilidade da Câmara garantir a limpeza daquele espaço. Conseguirá Augusto garantir, ao menos, a limpeza do concelho, já que a daqueles poucos metros quadrados é duvidosa?

A impotência para a barrela acabou por ser removida do texto, mas ficámos todos a saber que a Câmara não irá tocar na Casa do Bispo até ao final do presente mandato. Augusto dixit. E ficou preto no branco. Em termos práticos, sabendo-se que nada vai avançar no Castelo nem na Fortaleza, a recuperação do património sesimbrense está irremediavelmente comprometida nos próximos anos. Mas o primeiro destino turístico da península de Setúbal é já ali, ao virar da esquina, na Rua Antero do Quental. Estamos bem entregues.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O primeiro destino

A inauguração da Casa do Bispo é já no próximo sábado, dia 14 de Julho, pelas 18 horas. A exposição inaugural, patente no agora denominado “Pátio Verde”, chama-se “Seis horas a comer”, e o ingresso custa sete euros e meio. Na cafetaria do monumento, só refeições ligeiras: uma sardinhada, o inevitável porco preto e a sobremesa a rematar. Inspirados pela tomada da Bastilha, que nesse dia se celebra lá pelas Franças, aí vamos nós, rumo ao primeiro destino turístico da península… Parabéns, Augusto!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Aos costumes, disse nada

Não sou eu, com a minha proverbial má vontade, quem o diz. É o insuspeito Eufrásio Filipe, Presidente da Região de Turismo da Costa Azul (para todos os efeitos, um camarada!), na entrevista concedida ao “Correio da Manhã” de hoje.

Quando o questionam sobre os grandes eventos que podem “agitar” o distrito de Setúbal neste Verão, salienta quatro: o festival de teatro de Almada, o FIAR em Palmela, o FMM (Festival Músicas do Mundo) em Sines e o Seixal Jazz. E acrescenta: “Estes quatro eventos são uma referência na Costa Azul: sons, gestos e imagens percorrem a Costa Azul. No vasto e diversificado mundo cultural da Costa Azul estes quatro festivais distinguem-se”.

Sobre Sesimbra, que, em 2005, Augusto almejou transformar no maior destino turístico da Península de Setúbal (recentemente, o inefável Patrício ampliou esse desejo à escala do próprio distrito), Eufrásio, aos costumes, disse nada. Não obstante, fica-se com a sensação de que nunca se gastou tanto dinheiro em espectáculos como agora. Uma pergunta inocente: os “cachets” pagos às trutas que abrilhantaram a inaugurança do Cine-Teatro não poderiam sustentar – ao menos parcialmente – um festival de Verão de referência, no campo musical?