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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Não-te-irrites

Decididamente, eles estão com os azeites.

Conforme se lê na fumegante “Sopa de Pelim”, a Dr.ª Felícia verberou há dias, ao de leve, os professores do concelho por estes não lhe passarem cartão. Sempre que a senhora lhes destina alguma das geniais iniciativas com que imortalizou o seu repertório, os docentes não ligam peva. São uns ingratos. Não se faz.

Na sua cátedra do “Raio de Luz”, o olímpico Augusto apela este mês às memórias que guarda de antanho para puxar as orelhas aos comerciantes locais que não deitam o lixo no lixo. São uns porcos. Não se faz.

Por este andar, o edil, no auge didáctico do seu zelo higiénico, ainda acaba a dar-nos explicações sobre o modo de usar o ecoponto, citando Goethe e a sua “Teoria dos Cores”. Melhor seria, no entanto, que começasse por dar uma valente barrela na alfurja em que a Fortaleza está transformada; e convencesse, depois, os seus activos camaradas a removerem o inútil lixo propagandístico com que infestaram esta terra desgraçada. Será que não tem espelhos em casa?

Quase simultâneos, os dois episódios são um sintoma precioso. Revelam bem a que ponto chegou o desnorte desta dupla desorientada que nos desgoverna há dois anos. Os sesimbrenses, porcos e madraços, não os merecem. São, aliás, os grandes culpados da estagnação a que se chegou.

O olímpico Augusto e a Dr.ª Felícia bem gostariam agora de criar o homem novo; ou, não podendo ser, de mudar o povo do concelho, seguindo a velha máxima do camarada Brecht. Mas não têm sorte nenhuma. Resta-lhes, assim, como exercício espiritual, umas boas jogatanas de “não-te-irrites”.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Limpar as mãos à parede

Ontem, num café do centro de Sesimbra (não vou dizer qual foi), resolvi comprar um gelado (também não vou dizer qual foi) para mim, e outro (também não vou dizer qual foi) para o pequeno. Acto contínuo, abri a tentadora arca da Olá (elas agora são como um partido que eu cá sei, têm paredes de vidro). Prestes a deitar a mão aos sorvetes, oiço a repreensão ríspida, quase indignada, do dono do estabelecimento: “Isso não pode estar aberto! Tem de escolher antes de tirar!” Respondi-lhe, de pronto, que a escolha já estava feita. E estava, desde o início.

Depois de lhes pagar o resgate, confio, por breves instantes, os rajás ao pequeno e dirijo-me às toilletes, onde não havia toalhetes. Apenas o sítio dos toalhetes. Ora, haver toilletes sem toalhetes, apenas com o sítio dos ditos, não me parece nada bem, para mais em casa comercial de tão esmerado desempenho, onde um gelado é sempre um gelado, e assim deve permanecer, dê lá por onde der, doa a quem doer.

Bem sei que a Dr.ª Peneque prodigalizou recentemente exércitos de ventres famélicos à porta dos nossos restaurantes, mas ali, senhores, tratava-se de uma simples pastelaria! Se bem me lembro, as Escrituras mandam-nos sacudir, à saída, a poeira das sandálias. Mas eu saí dali sacudindo as minhas mãos molhadas, ostensivamente. O exigente senhor gerente, esse, bem pode limpar as suas à parede. Assim como assim, não tem outro remédio.