O lamentabilíssimo episódio de que o Carteiro
aqui nos deu conta ontem à noite, envolvendo, uma vez mais, as esferas camarárias da Cultura, vem mostrar à puridade que a rejeição do comunismo não é mera questão ideológica. É, sobretudo, e antes de mais, como eu já aqui escrevi, um gravíssimo problema civilizacional. A refutação teórica do comunismo há muito que foi feita. Persistir no erro só é explicável por uma obstinada profissão de fé no dogma da vontade. O desrespeito pelo compromisso assumido, a agitação infundada e o exercício irracional da força são a marca atávica desta gente. É certo que, por puro calculismo, a coisa pode ficar uns tempos em banho-maria e, assim, entregando-se ao simulacro, os netos de Estaline dão-se beatificamente uns ares de tolerância e abertura "pour épater le bourgeois". E, então, lá vêm, em causa própria, os escritos laudatórios dos corifeus, sugerindo o monopólio comunista da honestidade, da transparência e da competência, mormente no domínio da cultura. Porém, o que se passou nos dias imediatamente anteriores ao lançamento do livro de Cagica Rapaz oferece formal desmentido ao mirífico estado de coisas apregoado. O código genético é irrevogável.