A esporádica coluna de um regressado EscribaA realidade, essa impertinente1. Como é sabido, o generoso Dr. Cristóvão Rodrigues permitiu-se conceder, a si e às suas hostes, seis meses de remansosos preparos na abordagem prática à realidade política concelhia. Entretanto, a realidade, sempre impertinente, decidiu não esperar tanto tempo e, tal como o Estafeta
aqui previra, o Partido Comunista, pela voz de Florindo Paliotes, uns dos seus mais destacados militantes locais, resolveu colher e embrulhar, nas páginas do último “Nova Morada”, os louros que brotam dessa árvore frondosa que é a Biblioteca Municipal de Sesimbra, a qual, “com os seus variados locais e actividades viradas para todas as camadas da População”, será, segundo Paliotes, um dos exemplos da “política cultural integrada no projecto concelhio da CDU em Sesimbra que, com respeito integral e total pela cultura do Povo Sesimbrense, leva à prática os princípios programáticos do PCP”. Ora toma!
2. Bem sei que, no tocante à Biblioteca, o Dr. Cristóvão meteu prudentemente a viola no saco, pois que lhe há-de ser difícil encetar o solfejo da pauta escrita pelo lápis azul da Dr.ª Guilhermina. (Não por acaso, pudemos ontem escutar um desassombrado Félix Rapaz dizer, alto e bom som, para quem o quis ouvir, durante o lançamento das “Conversas Com Versos e Com Ventos” no Clube Sesimbrense, que não lhe tinha sido fácil, em termos partidários, promover a apresentação desta obra de António Cagica Rapaz.) Claro está que, com o seu silêncio, o Dr. Cristóvão não perdeu apenas uma boa oportunidade para se dar ao respeito e ganhar crédito junto do eleitorado. Abdicou ainda de manifestar a réstia de soberania a que podia aspirar na condução política da censória vereadora sua correligionária, deslize que os comunistas, como se viu, não perderam tempo a aproveitar.
3. Aquilo que o Dr. Cristóvão autorizou pelo mutismo, terão agora os netos de Estaline vindo caucionar de modo tácito. É, pelo menos, o que um bom entendedor pode depreender das meias palavras de Florindo Paliotes, quando este, na folha condense, verbera as “medidas de alienação, elitistas e sobranceiras”, que, em matéria de política cultural, devem ceder o passo à bota cardada de “uma actividade permanente e abrangente, cujo destinatário é a população em geral, sem faixas privilegiadas e redutoras”. Envolta na habitual cangalhada ideológica, a mira da fórmula, se assenta como uma luva nos extintos colóquios de filosofia portuguesa e na audácia literária de Cagica Rapaz, deixa por explicar como é que “os princípios programáticos do PCP” se coadunam com “a multiplicidade e diversidade cultural” do concelho, “das suas gentes, dos seus usos e costumes”. Qualquer pessoa medianamente instruída, e com dois dedos de testa, sabe que o comunismo visa a realização final dessa monstruosidade suprema que é o “ser genérico”. Pela minha parte, prevenido que me encontro pelo pensamento demolidor de um Orlando Vitorino, continuarei a divertir-me com a leitura dos entimemas arqueológicos do senhor Paliotes. Mas, ao Dr. Cristóvão, jamais lhe poderei perdoar a deserção perante a realidade, essa impertinente.
Escriba