segunda-feira, 30 de junho de 2008

E agora, Maria José?


Eu gosto muito do meu país e das pessoas bondosas que governam o meu país há no meu país pessoas de coração bonito que oferecem fruta aos amigos e outras pessoas más que os acusam de coisas feias e os querem levar a tribunal eu por acaso ouvi um senhor dizer na televisão livre do meu país que comeu fruta oferecida mas esse senhor não deve regular bem da cabeça porque o bondoso senhor juiz acaba de perdoar tudo ao senhor do coração bonito por não ver mal nisso eu gosto muito do meu país porque a justiça é bonita a fruta é boa eu gosto muito do meu país e nunca vou querer sair do zimbabe e digo isto com paixão saudades do vosso jacinto

sexta-feira, 27 de junho de 2008

É aproveitar...


O transparente primeiro-ministro italiano, Sílvio Berlusconi, conseguiu ver aprovado um decreto lei que confere imunidade judicial às quatro personalidades mais importantes do regime.
Entre elas está, claro, o próprio Berlusconi que é o único a ter problemas com a Justiça.
Consta que por cá já há quem comece a levantar o dedo, em particular presidentes e ex-presidentes de clubes de futebol, uns a residir em Portugal e outro que emigrou, coitado, para Londres...


A "porção" mágica


Um malicioso Dom Pepe, em oportuno comentário, acha que falhei ao vaticinar a vitória da Rússia. Sim e não.
De facto, a Espanha é que ganhou, mas isso só confirma o que escrevi no início do texto, ou seja, que cada jogo é uma experiência única, ímpar. E foi.

Mas isso pouco importa, uma vez que não pretendo abrir um consultório de prognósticos desportivos. A única coisa que me dá prazer é expor uma ideia, um raciocínio susceptível de agradável leitura, mesmo quando é (e às vezes é) atrevido e salpicado de má fé inofensiva e retórica.
Neste caso, o que me parece digno de registo é o que sucedeu com as equipas da Rússia e da Espanha.

A Rússia emergiu, de súbito, diante de uma (até ali) brilhante Holanda que foi positivamente
esmagada. Enquanto a Espanha foi medíocre diante da Suécia e da Itália, jogando a passo e sem chama.
De repente, quando se esperava novo recital de Arshavin e companhia, a armada espanhola destroçou por completo os russos.
O que me espanta não é o resultado, não são os números, mas a forma como os russos asfixiaram, dominaram e quase humilharam os holandeses.
A mesma forma como, por sua vez, foram varridos por um grupo de miúdos (Xavi, Iniesta, Silva) que ganharam todos os despiques, correram sem parar, encheram o campo com um pulmão inesgotável.
O que fez a Rússia cair do 80 para o 8? O que levou a Espanha aos cumes de vitalidade e da exuberância? Quem explica estes estonteantes altos e baixos?

Eu não sou de intrigas, mas, ao olhar estes quadros, dou por mim a rever imagens dos livros do Astérix quando imponentes legiões romanas são derrotadas a soco e a pontapé por minúsculos gauleses irredutíveis, é certo, mas débeis.
Pelo menos até passarem pela casota do druida Panoramix, o pai da poção mágica...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Entre a paella e a salada


O futebol tem destas coisas extraordinárias que fazem de cada partida uma experiência única, ímpar, liberta das amarras com que alguns iluminados querem por força condicioná-las.
As estatísticas são meras curiosidades, folclóricas e totalmente irrelevantes.
De que serve recordar hoje que uma equipa ganhou a outra por 10 a zero há vinte anos?

Há meia dúzia de dias, a Espanha cilindrou a Rússia. Hoje, sós espanhóis ferrenhos ousarão acreditar que nuestros hermanos sejam capazes de resistir ao génio soviético.
Se a Espanha repetir a vitória será um feito de se lhe tirar o chapéu.
Nesse registo, só Portugal consegue a proeza de, na mesma competição, fazer o mesmo resultado, por duas vezes, com a mesma equipa.
Aconteceu-nos em 2004, com a Grécia. Foi o nosso Vale dos Caídos. Obrigado, Felipão!

No espírito dos espanhóis perpassa uma certa ideia de transcendência, com uns pingos de loucura quixotesca e o pânico do irremediável sob forma de roleta russa...


São rosas, senhor...


A Comissão de Defesa do Ambiente da Ribeira dos Milagres denunciou hoje mais uma descarga de efluentes suinícolas (vulgo merda de porco) naquele afluente do rio Lis, na região de Leiria.
Neste mês é a segunda que acontece, sempre pela calada da noite.
Ao todo, nos últimos anos, são dezenas, centenas, não sei, sem que alguma vez se tenha ouvido falar de coimas, multas, sanções ou condenações.

Por milagres que só a GNR saberá explicar, a desgraçada ribeira e os habitantes da zona são vítimas da prepotência criminosa de indivíduos que nada se importam com a Natureza nem com as pessoas, menos ainda com a Lei.
É este o país moderno que temos, dos grandes desígnios, dos projectos de interesse nacional, dos choques tecnológicos, dos simplexes e mil outros rótulos pomposos.

Há muito que sabíamos que há lodo no cais. E merda na ribeira.
Porreiro, pá!

Mal-estar


Jaime Gama levou a tribunal um ex-aluno da Casa Pia alegando que este o teria difamado de forma continuada.
O tribunal não deu como provados os factos denunciados pelo jovem, mas também não os considerou falsos.
Daí que tenha decidido a favor do ex-casapiano.

Não sai bem da contenda o senhor Presidente da Assembleia da República e, nesta época de incêndios que se aproxima, fica no ar a ideia de que não há fumo sem fogo.
Honni soit qui mal y pense, naturalmente...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Andréi Asharvin


Quem conhece um bocadinho de futebol, olha para o miúdo Messi e fica deslumbrado.
Depois, vê aparecer um tal Asharvin e queda-se boquiaberto.
Não sei o que vai o rapaz fazer até ao fim do Euro, mas o que já fez é suficiente para o colocar no topo mais alto desta competição.
Porque talento puro é outra dimensão, não é circunstancial, não tem altos nem baixos, é como os diamantes, eternos.
Que têm andado a fazer os "olheiros" de tantos clubes ricos?

Ah, parece que Ronaldo é o melhor do mundo...

Cuidados com a pele...


Cavaco Silva é um homem austero, pertence à raça dos espartanos, e aprecia mulheres de carácter.
Por isso escolheu Manuela Ferreira Leite para integrar o Conselho de Estado. E como esta declinou o honroso convite, Cavaco chamou Leonor Beleza que aceitou.

Pode dizer-se que a beleza não foi o critério principal que presidiu à escolha de Cavaco, pois nem Manuela nem Leonor brilham pela formosura.
Mas enfim, não se saiu mal o Presidente, tanto mais que pouco distingue Leite de Beleza...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Scolarinho branco


O que é que vocências querem? Eu sou assim, raisparta o homem que não resiste a um bom trocadilho.
Vai daí, olhando para estas operações financeiras (que, se calhar, são a finalidade principal do Euro) dei por mim a pensar que esta marmelada toda só pode ter uma designação à altura: scolarinho branco.

De costas voltadas


Nos anos 50 e 60 do século passado, os jogos de futebol disputados no campo da CUF do Barreiro tinham a particularidade da presença de elementos da GNR que passavam o tempo todo de costas voltadas para o rectângulo onde se disputava a partida e concentravam a sua atenção apenas nos espectadores.
Em dia de jogo grande havia sempre quem acabasse na prisão, por um gesto mais expansivo ou um grito mais vibrante.
A implacável GNR punha e dispunha, era temível.

Lembrei-me deste quadro triste ao ver, na televisão, no Euro 2008, os inúmeros stewards (assistentes? vigilantes? fiscais?), de cócoras, igualmente de costas viradas para o campo e com os olhos postos no público.
Felizmente, não têm as trombas patibulares da maioria dos GNR que espalhavam o terror nas ruas do Barreiro, terra onde as pessoas iam à bola mas nem por isso deixavam de ter causas por que se batiam, sem voltar as costas à luta pela liberdade...

Feira da ladra


É muito provável que Portugal vença a rígida Alemanha, mas se tal não acontecer virá a lume a bagunça que reina no seio da "família" lusitana onde um empresário (Jorge Mendes) é o parente mais influente.
A farsa é ridícula, com os jogadores a negarem saber da saída de Scolari quando toda a gente estava ao corrente de que o negócio foi feito em Abril. Claro, Madaíl também sabia.

Depois, naquela feira da ladra das transferências, Scolari permitiu a ida de Deco a Barcelona para se desligar do clube e seguir para o Chelsea com o padrinho Felipão.
Isto e muito mais poderá encher páginas de jornais se Ballack fizer das suas amanhã.
Se Portugal ganhar, o segredo (?) será preservado por mais uns dias.

É o milagre da euforia das vitórias festejadas pelo Zé Pagode ingénuo que nem sonha o que se passa nos bastidores e faz o papel de bobo da corte dos milionários do jogo da bola, dirigentes, empresários, jogadores, treinadores.
Os jornalistas, enviados especiais, escondem, mentem, fazem vénias e promovem a palhaçada.
Mas é assim, há quem goste...

terça-feira, 17 de junho de 2008

A melodiosa indignação


Era de prever. Depois de pescadores, transportadores e agricultores, temos agora os amoladores em fúria, protestando contra o Governo que faz ouvidos moucos à velha melodia da gaita de beiços que, antigamente, assinalava a presença do artesão e prenunciava chuva.
Não é o preço dos combustíveis que preocupa os amoladores, sendo sabido que se deslocam a pé ou de bicicleta.
O que não conseguem digerir é o que consideram ser (mais) uma promessa esquecida por Sócrates.
Com efeito, o presidente do Sindicato dos Amoladores, Joaquim Afiadinho, revelou-nos que definiu a estratégia e o orçamento para 2008 sob protesto porque, quando o Governo impõe rigor e sacrifícios, o portuga é que se amola,
e esta atitude colide com os legítimos direitos da classe dos amoladores.
Para amolar estão cá eles, não sendo aceitável que cada um se amole a si mesmo.
A senhora Governadora Civil de Setúbal já empandeirou os agricultores do Poceirão, pelo que não parece crível que se deixe seduzir pela melopeia dos amoladores.
Pelo sim pelo não, os homens da navalha e da tesoura já solicitaram o apoio de Manuel Alegre que é uma figura muito querida no meio por ser dos que mais recorrem aos instrumentos de culto dos amoladores, em vibrantes sessões que dão ao PS água pela barba do poeta...

Em casa de ferreiro...


Resolvi hoje sair do meu retiro sabático e passar aqui pela estação dos Correios onde deitei um olho aos jornais.
Mal abri o SOL, vi uma notícia segundo a qual a generalidade dos alunos que hoje fizeram a prova de Português a acharam fácil.

Mais abaixo, e a propósito da ASAE, um jornalista "solista" não hesitou em escrever direccionar fiscalização.
Eu não sei, lá no jornal, quem fiscaliza o que certos fregueses escrevem, mas este que puxou do direccionar certamente teria chumbado no exame de Português que a maioria achou fácil...

sábado, 14 de junho de 2008

Elogio da barbárie

Cavaco Silva já veio dizer que Dublin deve propor uma «solução» para ultrapassar o “não” ao Tratado de Lisboa. Sucede, porém, que os irlandeses não criaram qualquer problema. Pelo menos ilegitimamente. Limitaram-se a pôr em acto uma norma da Constituição que os rege. Ao dizerem “não”, estavam, como estiveram, no seu direito, dentro das regras do jogo. Obviamente, o cabedal político de Cavaco é que não dá para mais. Ainda há dias o ouvíramos, na presença dos reis do país dos fiordes, a desfazer-se num confrangedor elogio à Noruega, pela sua “sofisticação tecnológica” (ou coisa que a valha). Logo a Noruega, que já nos havia dado Ibsen, Grieg e Munch. Mesmo o episódio do “dia da raça”, se nada tem de objectivamente censurável, não deixa, no entanto, de relevar por aquilo que nos revela: a interiorização mecânica de um conceito degradado, naquele plano mental em que verdadeiramente nada de importante distinguia António Sérgio ou Álvaro Cunhal de António de Oliveira Salazar. Com o presente assomo, Cavaco foi mais longe, e mostrou à puridade que, para a filosofia triunfante, a soberania popular e a ordem jurídica que lhe dá expressão devem inevitavelmente ceder o passo perante a economia política. Cavaco, sem por certo disso se dar conta, faz o elogio da barbárie, prega o fim da civilização nesta feira cabisbaixa em que meticulosamente nos enfiaram. Talvez um dia alguém lhe explique que, nesses momentos menos solertes, pouco ou nada o distingue dos comunistas lato sensu que no último Dia de Camões o invectivaram.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

E agora, José?



As nações todas são mistérios.

Cada uma é todo o mundo a sós.

Fernando Pessoa, Mensagem

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Até já


Não é que isso tenha tanta importância como a falta de gasolina, mas achei por bem alertar os meus 3,7 admiradores (é a média, sim senhores) de que vou andar por aí, cá dentro, depois lá fora, enfim, um tanto exógeno à estação onde já entreguei o saco, o boné e a bicicleta.
De vez em quando, sem dia nem hora certa, talvez passe por cá para deixar um postal ilustrado com alguma maluqueira que cruze o meu caminho.
Suspeito que o Escriba faça como eu e que esta Carta emagreça um bocadinho este Verão.
Mas, sede compreensivos, olhai o número de textos que aqui deixámos e concordai connosco, merecemos descanso.
Se perguntarem por mim, digam que fui ali, já venho...

O trampolim


A saída de Scolari levanta várias questões, a começar pelo momento escolhido para o anúncio. Mas isso interessa menos, o homem conseguiu finalmente o que queria, ou seja, graças a um trampolim chamado Portugal consegui ser projectado para as libras do czar Abramovic.

A parte mais curiosa, porém, talvez seja a reflexão sobre o binómio equipa-treinador, ou seja, será o técnico o Gepeto dos pinóquios ou são estes que oferecem ao patrão galões que ele, se calhar, não merece.
Pessoalmente, considero que Scolari só trouxe de novo e de bom disciplina ao grupo.
De resto, apenas beneficiou de uma conjuntura altamente favorável, ao dispor de grandes talentos.

Aliás, atente-se no facto de Humberto Coelho ter levado Portugal às meias-finais no Euro 2000 e ter sido afastado de seguida. Porque Madaíl percebeu que o mérito era dos jogadores.
Sem pergaminhos como treinador, Humberto foi levado ao cargo (ao que consta) por cunha política e acabou por fazer boa figura graças ao naipe de grandes jogadores que tínhamos.
Daí para cá, ninguém confiou nele em Portugal, mas, como passou a poder exibir o cartão de seleccionador, conseguiu ir trabalhando, a espaços, noutros continentes.

Diz-se que vai para a Tunísia, mas, depois de ter andado a oferecer-se ao Benfica, é capaz de já estar a mexer os cordelinhos nos bastidores para se candidatar ao roupão e às chinelas de Scolari. É um clássico, esta disponibilidade do Humberto...

A verdade é que sem grandes jogadores, não há grandes vitórias.
Mancini ganhou três campeonatos seguidos no Inter, mas sai porque Mourinho promete a Liga dos Campeões. Para o que exige Drogba, Deco, Ricardo Carvalho, Lampard, etc.
Com estes craques, Mancini não ganharia ?

Scolari foi um hábil vendedor de quimeras, sacou da publicidade da Caixa Geral de Depósitos depois de receber do BES, no papel de patriarca carinhoso dos mininos, apesar do lapso do soco falhado.
E tudo porque teve a almofada dos grandes talentos. O que não impediu algumas vergonhas em apuramentos manhosos.
Agora, vai ser diferente, a luta será semanal e rija. Abramovic vai exigir resultados, não se contentará com bandeiras à janela.
Entretanto, o sargentão já ganhou para a velhice.
O homem pode ter (e tem) muitos defeitos, mas burro não é...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Raça de inocentes


Como é do conhecimento geral, Carlos Cruz chegou ao tribunal com uma bola, no intuito de provar que, num determinado dia, não esteve na casa de Elvas mas sim num estádio algarvio a ver um jogo entre equipas femininas.

O argumento é tão hábil e digno de fé como seria vermos o senhor Jorge Nuno, na próxima 6ª feira, pegar em dois rapazinhos e entrar na sede da UEFA pretendendo que não poderia nunca ter estado envolvido em arranjinhos com árbitros porque passou o tempo todo com os dois meninos no jardim da Celeste a brincar à cabra-cega.
Tão cega como a Justiça que ilibou o Porto no caso Calheiros...

terça-feira, 10 de junho de 2008

Ir para o Maneta...

...nem sempre é tão mau como o pintam. Especialmente quando se trata dos textos do Carteiro, dados à estampa no "Notícias da Zona". Foi o que, uma vez mais, sucedeu com o da entrada "Nunca se sabe", originalmente publicada neste blogue no feriado municipal do passado dia 4 de Maio, e agora republicado na mais recente edição daquele quinzenário, pela mão do jornalista Maneta Alhinho, que, "Na Desportiva", cedeu motu proprio e generosamente o espaço desta sua coluna às fintas do Carteiro. Para desconsolo de uns quantos, ainda há quem goste de ler o que por aqui se escreve. Ora calha a ser o "Público", ora o "Notícias da Zona". A nossa satisfação é igual. Acontece...

Raça

Parece que Cavaco Silva se recusou a falar da paralisação dos camionistas no “dia da raça”. Ipsis verbis. As palavras presidenciais engendraram um desconforto indómito entre certas luminárias da extrema-esquerda. Secundadas pelos netos de Estaline, logo as baratas tontas do Bloco vieram a terreiro clamar contra as designações impróprias de “raça” e de “dia da raça”, aplicadas pelo mais alto magistrado da Nação. Do alto do seu cachimbo, o Professor Fernando Rosas fez saber, urbi et orbi, que considerava absurda a ideia de uma raça portuguesa com características que ele consignou não saber quais eram.

Parecendo que não, participo nas perplexidades do insigne militante: no bairro da capital onde cresci, é possível andar dezenas e dezenas de metros sem se encontrar um único caucasiano na rua. Ali, nos últimos anos, o comércio castiço de uma popular zona lisboeta foi cedendo o passo a estranhas locandas que, vá-se lá saber porquê, me evocam, vezes sem conta, as piores alfurjas. Ao contrário do professor Rosas, e com sua licença (não tardará muito que ela seja necessária), isto desagrada-me e incomoda-me. Sempre me conveio a ideia de ter nascido português, de comer caldo verde e bacalhau com batatas, de falar na língua suave com que Camões e Pessoa edificaram Os Lusíadas e a Mensagem, monumentos oceânicos que universitários do jaez do professor Rosas, numa obstinada incompreensão, se afoitam a denegrir, deturpar e silenciar. Se o insigne militante mo conceder, e se isso ainda não for crime decretado pelas leis da República, quero aqui expressar a minha mágoa por quase já não conseguir reconhecer os lugares da minha infância e da minha juventude. Só que desta vez o culpado não é o maldito betão, monstruosidade vulgar a que os próceres de Rosas endossam as suas melhores vociferações. In casu, o problema está em quererem-me fazer crer que tanto me dá reclamar uns quantos costados beirões como abdicar sem mais das primeiras memórias, dissolvendo-as num magma étnico que oscila entre o Bangladesh insólito e algumas plagas subsaarianas. E nisso, pelos vistos, se conjuram agora todos os arautos do "ser genérico". Na verdade, tratando-se do essencial, nada distingue os comunistas dos bloquistas (e nem sequer de grande parte dos socialistas e outros democratas, apenas jungida ao silêncio por uma réstia de pudor na escolha das companhias ou por avisado calculismo táctico).

Por falar em África: não me recordo de alguma vez ter escutado ao professor Rosas uma só palavra de indignação pelos inúmeros assassinatos de portugueses que, nos últimos anos, foram sendo liquidados na África do Sul. Não sei se o preclaro professor se bastará com uma daquelas rasteiras explicações sociológicas que para tudo se arranja e que nunca explicam nada. Mas estou certo de que, de um ponto de vista racial, os criminosos sul-africanos têm uma visão bem clara do assunto. E, de resto, muito distante da de um Teixeira de Pascoaes, que via na raça “um certo número de qualidades electivas, (num sentido superior) próprias de um Povo, organizado em Pátria, isto é, independente, sob o ponto de vista político e moral”. “Portugal”, diz depois Pascoaes, “é uma Raça, porque existe uma Língua portuguesa, uma Arte, uma Literatura, uma História (incluindo a religiosa) – uma actividade moral portuguesa; e, sobretudo, porque existe uma Língua e uma História portuguesas”.

Calculo que nada disto convenha ao fumegante Rosas, emaranhado na estreiteza dos quadros mentais em que penosamente se move. Nem sequer o facto de Pascoaes sempre ter sido pela liberdade. Estaria tentado a aconselhar-lhe a leitura da entrevista que o vate de Gatão, perto do final da sua vida, concedeu a um jornal nacional, declarando público e veemente apoio à candidatura presidencial do General Norton de Matos. Mas, para Rosas como para muitos, Pascoaes é ainda um nome maldito e, no estado a que chegámos, continua a haver quem julgue poder declarar proscrita a força luminosa de certas palavras.