
Os nossos políticos são gente como nós, fúteis, superficiais, que se sentam no Parlamento com o espírito de teóricos de café, de comentadores da bica e bagaço, incapazes de seriedade e de frontalidade, presos ao círculo medíocre da pequena intriga, do lapso, do passo em falso.
O alarido feito à volta do cigarro de Sócrates é um exemplo flagrante da pequenez da nossa classe política que reage ao sabor do que julga ser a expectativa popular, o gosto pelo sangue da refrega partidária, o apetite pela trica e pelo imbróglio potencialmente comprometedor, a lembrar as rábulas dos Parodiantes de Lisboa ou os quadros de revista do Maria Vitória.
Deveria o país ter mais com que se preocupar do que o paivante do engenheiro. Tal assunto deveria ter ficado apagado quando o homem deitou fora a última baforada.
Mas não, os galos da Índia, as doninhas e os furões acorreram, todos contentes, clamando por Justiça, agitando a Constituição, rasgando as vestes, arrancando os cabelos, quase exigindo uma fogueira para purificar o pecador fumador.
É o conhecido princípio do fumador pagador.
Julgava eu, nesta beatífica ingenuidade que cultivo, ter visto tudo neste triste espectáculo de demagogia e saloiice quando o primeiro-ministro resolveu juntar a sua voz à do coro de fariseus e vir, publicamente, pedir desculpa, prometendo ainda deixar de fumar.
Perante isto, só nos resta concluir que, se o fumo mata (como a nova Inquisição nos repete), o ridículo, pelo contrário, é amigo deste ambiente podre em que vivemos...
